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Alcaparra
De há muito que desejava contactar a alcaparra, planta
elegante que vegeta em rochedos e resiste à aridez e secura do clima
mediterrânico. Ela é, no entanto, bastante rara no nosso País, pelo que
aproveitei uma digressão a Malta para a conhecer melhor. Nas minhas passeatas
pedestres pelo litoral das ilhas de Malta e Gozo, ia identificando numerosas
subespécies de plantas que predominam em Portugal, e, de súbito, dou-me com uma
florinha linda de morrer. Era a flor da alcaparra, constituída por quatro
sépalas verdes, quatro robustas pétalas brancas, em concha e, no centro, um
punhado de compridos estames violetas. Só por isso, a alcaparra deveria ser
classificada como planta ornamental, mas igualmente as folhas e a formação
arbustiva têm inegável beleza.
Embora a variedade mais comum seja a Capparis spinosa, a que encontramos em Malta, por estar praticamente
desprovida de espinhos, devia ser a sua irmã gémea Capparis orientalis. Porém, não importa aqui o rigor da designação
científica, pois as propriedades destes arbustos persistentes são praticamente
idênticas.
A Capparis possui
extensas raízes, folhas alternadas, grossas e arredondadas de pecíolo curto e
ramificações que podem alcançar mais de 20 cm. As flores, já parcialmente descritas,
são hermafroditas e pecioladas, surgindo nas axilas foliares e podendo ter 7 cm de largura. O ovário,
constituído por um filamento comprido no meio do cálice, encontra-se rodeado de
numerosos estames, cuja cor contrasta com a das pétalas. O fruto é uma baga
verde que pode atingir 5 cm
de comprimento.
Quer os antigos gregos, quer os romanos, usavam a alcaparra
para fins medicinais e gastronómicos, sendo a mesma mencionada por Theophrastes
e Plínio, entre outros. Também a Bíblia lhe faz referência.
Entre os seus componentes químicos, registam-se flavonóides,
óleo essencial semelhante ao da mostarda, ácido cáprico, ferro, sódio e
vitaminas. São-lhe atribuídas algumas propriedades medicinais: adstringente,
anti-espasmódica, diurética, tónica, aperitiva e vermífuga. Usam-se (ou
usavam-se) os botões florais e a casca das raízes para tratar a ciática,
aumentar a diurese, abrir o apetite e combater as flatulências. O Dr. Oliveira
Feijão receita o “vinho de alcaparra”, através da maceração prolongada de 30 g da casca da raiz num litro
de vinho branco, tomando-se um cálice antes ou depois das refeições.
Externamente, a decocção da raiz pode ser utilizada para a lavagem de feridas,
acelerando a sua cicatrização.
Actualmente, os botões florais das alcaparras, conservadas em
vinagre e sal, constituem um condimento muito apreciado pelos “gourmets”,
atingindo alto valor comercial. Só para ficarem com uma ideia, refiro que, no
mercado de Valletta, adquiri um frasquinho de 85 gramas por 1,20 euros.
Mais tarde, colhi eu próprio alguns botões e conservei-os em vinagre. Vamos lá a
ver se resulta!
As alcaparras constituem um ingrediente habitual da cozinha
mediterrânica, principalmente na Grécia e na Itália, quer como simples
aperitivo, quer integrando “pizzas”, saladas e molhos. Em determinadas regiões
utilizam-se culinariamente também os frutos e as folhas migadas, devido ao seu
sabor levemente salgado e picante.
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