|
|
Entrada Artigos Ecologia Serge Latouche, porta-voz da filosofia do decrescimento
|
Medicinas Não Convencionais -
Ecologia
|
|
Escrito por Carlos Ventura
|
|
Sexta, 05 Fevereiro 2010 23:27 |
in revista Natural Beija-Flor 2010 fev
Serge Latouche, porta-voz da
filosofia do decrescimento
O activista francês ataca a adição ao
consumo da sociedade ocidental e propõe uma série de medidas para a travar
Nos últimos
anos, o francês Serge Latouche converteu-se no porta-voz e na referência mais
conhecida da filosofia do decrescimento, uma crítica construtiva ao paradigma
dominante de crescimento ilimitado. Escritor, articulista e activista da simplicidade,
Serge Latouche visitou recentemente Espanha e dedicou alguns minutos da sua
apertada agenda à revista Integral.
O movimento
do decrescimento que representa nasceu em finais dos anos 70 a partir de
pensadores críticos do desenvolvimento e da sociedade de consumo como Iván
Illich, André Gorz, Cornelius Castoriadis ou François Partant, mas é hoje que sobressai
mais do que nunca como um projecto social, económico e político perante a
sociedade do perpétuo crescimento. E é assim porque são muitas as razões que no
momento actual questionam a lógica do crescimento económico. Por um lado,
sofremos uma crise de índole diferente (económica, financeira, ecológica,
social, cultural...) e por outro, o aumento do nosso rendimento per capita nas
últimas décadas aconteceu em paralelo com uma aparente diminuição do nosso grau
de satisfação com a vida. Para dar um exemplo, só em 2005 os franceses
adquiriram 41 milhões de caixas de antidepresivos, enquanto 49% dos
norte-americanos assegurava que a felicidade está em retrocesso, ao passo que
26% considerava o contrário.
Existem razões
suficientes, portanto, para rever de maneira profunda o actual modelo de
progresso e ver se se converte em justiça e em felicidade para todos. Isto é
essencialmente o que propõe Latouche através do movimento do decrescimento. "É
um slogan provocador - sublinha o economista - que junta os ateus da religião
do crescimento e os agnósticos do progresso com o objectivo de quebrar a
linguagem estereotipada dos viciados em produtivismo."
O ponto de
partida é o seguinte: as sociedades ocidentais viciaram-se no crescimento e na
capacidade regeneradora da Terra, que já não pode responder às nossas
exigências. O melhor indicador para calibrar esta desporporção é a dívida
ecológica que mede a superfície do planeta necessária para manter as
actividades económicas. Dada a actual população da Terra, para haver
sustentabilidade considera-se que cada um de nós deveria limitar-se a consumir
1,8 hectares desse espaço bio-produtivo. Porém, para sustentar o nosso actual
nível de vida (como europeus) necessitaríamos de 5 hectares por pessoa ao ano.
Se todos os habitantes do planeta vivessem como nós, faltariam 3 planetas, ou
6, se tomássemos como referência o modelo de vida dos Estados Unidos. A maior
parte dos países africanos, pelo contrário, consome menos de 0,2 hectares de
espaço bio-produtivo, uma décima parte do planeta. Esta é a advertência que
lança Serge Latouche: "Se daqui a 2050 não modificarmos esta trajectória, a dívida
ecológica corresponderá a 34 anos de produtividade, ou a 34 planetas".
GASTAR COM BOM SENSO
Para reduzir
a pegada dos nossos excessos, os defensores da visão de decrescimento preconizam
produzir e consumir de maneira diferente. Perante o medo dos seus detractores,
que põem as mãos na cabeça acreditando que decrescer significa voltar para traz
até à Idade da Pedra ou à Idade Média, Latouche responde: para a Europa, voltar
à pegada ecológica dos anos 70 não significa regressar às cavernas. Nos anos 70
comíamos igual ou até melhor que hoje. Agora consumimos 3 vezes mais petróleo e
energia para produzir as mesmas coisas. A diferença é que o iogurte de hoje,
por exemplo, não tem nada a ver com o iogurte que consumíamos há 30 anos. Os de
antes faziam-se com a vaca do vizinho e os de agora fazem-se há distância de 9 mil
quilómetros, sem contar que pagamos por outros serviços incorporados, como a
embalagem, os pacotes, etc. A chave está em produzir e consumir a nível local
além, é claro, de limitar a tendência actual para o hiper-consumismo."
Contudo,
cortar no nosso consumo não é a receita que governos e empresários insistem em
prescrever-nos. "Os nossos governos - assinala Latouche - estão próximos da esquizofrenia
porque sabem perfeitamente que o sistema caminha para o colapso. O sintoma mais
evidente é a mudança climática, mas também a extinção acelerada de espécies, a
propagação de doenças relacionadas com a contaminação e o declínio que a longo
prazo implicará o fim do petróleo. O problema é que os políticos não são
eleitos para mudar o sistema. O poder não lhes pertence a eles mas sim às
grandes empresas internacionais que actuam como os traficantes de droga,
alimentando o nosso vício pelo consumo para perpetuar assim a lógica do
sistema. Não são capazes de imaginar outro modo de vida. O crescimento negativo
que vivemos é dramático, mas há que o relativizar. Recebemos muita propaganda mediática
com o objectivo de recomeçar e repetir os mesmos erros. Berlusconi, por exemplo
chegou a dizer que devemos renunciar a Quioto para relançar a indústria
automóvel. É claro que é preciso parar o desemprego, mas o primeiro passo na
lógica do decrescimento seria reduzir o tempo de trabalho".
Com efeito, partilhar
o trabalho e aumentar os prazeres é uma das chaves na receita do decrescimento.
Os seus pensadores advertem que não se trata de desmantelar o sistema de
repente, mas de iniciar um processo de transição para reduzir certos sectores
industriais - automóvel, militar, aviação e construção -, rever a durabilidade
dos produtos, fragmentar o espaço monetário, recuperar a produção local, diminuir
em dois terços o nosso consumo de recursos naturais e gerar mais emprego verde, entre outras mudanças possíveis. Trabalhar menos e de outra
maneira pode significar, na óptica decrescente, reapropriar-nos do tempo, reavivar
o gosto pelo ócio, recuperar a abundância perdida de sociedades anteriores e
permitir o florescimento dos cidadãos na vida política, privada e artística,
assim como no jogo ou na contemplação. " O que é absurdo é pedir a um
trabalhador que faz 60 horas semanais que leia as 600 folhas do futuro Tratado
Europeu. Isso é uma caricatura da democracia, ironiza Latouche.
MENOS É MAIS
Outra paródia
é o conceito de crescimento ou desenvolvimento sustentável que tem estado no
centro do discurso ambientalista dos últimos 20 anos. "É significativa a
ausência de verdadeira crítica à sociedade de crescimento na maioria dos discursos
ambientalistas que se ficam pela rama com explicações sinuosas sobre o
desenvolvimento sustentável. Este desenvolvimento encontrou o seu instrumento
favorito nos seus mecanismos de desenvolvimento limpo, tecnologias que poupam
energia ou carbono sob a forma de eco-eficiência, mas continuamos no campo da
diplomacia verbal porque o desenvolvimento sustentável, no fundo, não põe em
causa a lógica suicida do desenvolvimento. O eco-crescimento - assegura
Latouche - é objectivo do novo capitalismo Verde, do marqueting e do mediático. "
O
decrescimento, Pelo contrário, posiciona-se como uma mudança profunda de
paradigma e como uma modificação das instituições que o desenham a favor de uma
solução razoável: a democracia ecológica. Para ela já trabalham numerosos
grupos locais que se auto-gerem para decrescer em toda a Europa e também novas
iniciativas que se projectam na mesma linha.
"Se eu decido
reduzir o meu consumo de petróleo mas o meu vizinho não o faz, o resultado é
que eu farei com que ele tenha mais petróleo para ele consumir e portanto não haverá
uma mudança substancial importante a nível global. Por isso, sugere Latouche,
são melhores as iniciativas colectivas, como os grupos de família que se
organizam para que a escolha ecológica do colectivo diminua. Este tipo de
experiências é muito mais interessante."
Uma das
propostas mais inovadoras é a que está englobada sob o movimento de Cidades em
Transição, que começou em Inglaterra e Irlanda e que utiliza o conceito de
"resistência" para valorizar a capacidade de um grupo ou de um sistema para
resistir às mudanças à sua volta, tais como o fim do petróleo ou o aumento da
temperatura. Na opinião do economista, " trata-se de reabrir o espaço para a
inventividade e a criatividade dependendo dos valores e dos objectivos de cada
sociedade. O decrescimento é um sonho de hoje, mas há que trabalhar para o
converter na realidade de amanhã".
OS PILARES DO CONHECIMENTO
É preciso
fazer frente à desmesura do sistema que se poderia traduzir na raiz "hiper-" de
"hiper-actividade", "hiper-desenvolvimento", "hiper-produção",
"hiper-abundância... Para o conseguir, o movimento do decrescimento propõe
aplicar os oito "R":
Reavaliar. Substituir os valores dominantes
por outros mais benéficos. Por exemplo, altruísmo em vez de egoísmo, cooperação
em vez de competência, gosto em vez de obsessão pelo trabalho, humanismo em vez
de consumismo ilimitado, local em vez de global, etc...
Reconceptualizar. Significa olhar o mundo de outra
maneira e portanto outra forma de interpretar a realidade, que passaria por
redefinir conceitos como os de riqueza - pobreza, ou escassez-abundância.
Reestruturar. Adaptar o aparelho de produção e as
relações sociais em função da nova escala de valores.
Relocalizar. Produzir localmente os bens essenciais
para satisfazer todas as nossas necessidades.
Redistribuir. Implicaria basicamente uma
distribuição diferente da riqueza.
Reduzir. Fazer o possível por diminuir o
impacto que têm na bio-esfera as nossas formas de produzir e consumir, além de
limitar os horários de trabalho e o turismo de massas.
Reutilizar e reciclar. A melhor forma de parar o desperdício
é alargar o tempo de vida dos produtos.
Recuperar a inteligência do caracol
Iván Illich,
pensador austríaco e um dos teóricos do decrescimento, escreveu que o caracol constrói
a sua concha somando, uma a uma, espirais cada vez maiores. Aí, detém-se
bruscamente e começa a fazer voltas decrescentes. Uma só espiral a mais faria
com que a concha fosse 16 vezes maior, sobrecarregando o animal. A partir daí,
qualquer aumento da sua produtividade serviria somente para aliviar as
dificuldades criadas por uma concha que crescera de mais. Nesse limite, os
problemas de sobre-crescimento multiplicam-se em progressão geométrica,
enquanto a capacidade biológica do caracol só pode , no melhor dos casos,
seguir uma progressão aritmética. O decrescimento utiliza esta imagem como
símbolo do seu ideário.
Esther Mira
|
|
|